“Líderes inseguros barram inovações", diz consultor
Praveen Gupta diz que muitas grandes companhias preferem funcionários que não pensam por temer mudanças
Carla Falcão, iG São Paulo | 31/03/2010 07:33
Autor dos livros “Inovação Empresarial no Século 21” e “The Innovation Solution” (sem tradução para o português), o indiano Praveen Gupta é reconhecido por prestar consultoria em inovação para grandes empresas e organizações de diversos países, como o Grupo Sonae e o Instituto de Tecnologia de Illinois, nos Estados Unidos. Ao longo de sua carreira, Gupta chegou à conclusão que, na maioria dos casos, o principal entrave à inovação dentro de uma companhia é a presença de um líder inseguro, relutante em assumir riscos, cujos funcionários não o desafiam.
“Este executivo, que ignora qualquer forma de inovação, sente-se desconfortável com mudanças e tem medo do que considera indisciplina por parte de seus subordinados. É justamente nessas empresas que os funcionários são desencorajados a pensar”, diz Gupta. Em sua opinião, apenas 20% dos presidentes de empresa estão comprometidos com a inovação.
Gupta, que também preside a consultoria Accelper, observa que pesa nas companhias a percepção de que é preciso gastar muito para criar produtos e serviços inovadores “Isso é mito”, afirma. Criamos soluções alternativas e mais eficientes quando surgem as necessidades”, afirma.
Leia a entrevista com Praveen Gupta.
iG: No livro “Inovação Empresarial no Século 21, o sr. afirma que a falta de tempo para pensar é um dos maiores obstáculos à inovação nas empresas. As grandes companhias preferem funcionários que não pensam?
Gupta: As pessoas estudam para ter maior qualificação e conseguir bons empregos, nos quais sua capacidade de pensar e resolver problemas seja reconhecida e remunerada. Mas, o que venho observando, é que quanto maior o nível de educação, menos as pessoas têm tempo para pensar. Isso acontece porque infelizmente há muitas empresas grandes que desencorajam seus funcionários a raciocinar. Muitas até preferem profissionais que não pensam, pois acreditam que isso possa levar à perda de produtividade ou gerar indisciplina em níveis hierárquicos inferiores.
O que essas corporações esquecem é que o propósito de qualquer empresa é gerar produtos e serviços pelos quais os consumidores desejam pagar. Para que isso aconteça, é fundamental contar com equipes motivadas. Minhas pesquisas demonstraram que funcionários com liberdade para pensar e se expressar costumam trazer à tona as melhores e mais criativas ideias para impulsionar o crescimento da companhia.
iG: Quais são as principais dificuldades para estimular a inovação identificadas nas empresas?
Gupta: A falta de compromisso da liderança da companhia com a inovação é, sem dúvida, um dos maiores obstáculos. Após anos de trabalhos como consultor em grandes empresas, pude identificar dois tipos de líderes. O primeiro é aquele que valoriza o conceito de inovar e está disposto a assumir riscos, investir, pensar e desafiar aos outros e a si mesmo. Já o segundo tipo, é aquele que ignora qualquer forma de inovação, sente-se desconfortável com mudanças e tem medo do que considera indisciplina de seus subordinados.
Ousaria dizer que a maior parte dos executivos é inovadora por natureza. Mas, diante do atual cenário econômico e da pressão pelo retorno dos investimentos no curto prazo, poucos se animam a apostar suas fichas em algo incerto. Acredito que apenas 20% dos presidentes das maiores companhias estejam de fato comprometidos com a inovação. Para reverter esse quadro, recomendo aos presidentes e diretores que, em primeiro lugar, assumam um compromisso com a construção do negócio em si e, depois, aprendam tudo que for possível sobre a ciência da inovação.
iG: Desde a crise econômica, inovar parece ser a solução para tudo. Da redução de custos à conquista de novos clientes, passando até mesmo pela melhoria de clima organizacional. Não há um certo exagero?
Gupta: Inovação é, certamente, a palavra da moda. Todo mundo fala em inovação para comprovar a exclusividade de seu produto, solução ou serviço. De fato, inovar não representa mais uma opção da qual a empresa possa abrir mão sem prejuízo para o negócio. Hoje, trata-se de uma escolha entre crescer e ficar estagnado, inovar ou morrer. Não são apenas as empresas que precisam ousar e criar novos produtos, mas também as pessoas. Para os indivíduos, inovar tornou-se uma habilidade mandatória no século 21 pela necessidade crescente de se adquirir e criar conhecimento rapidamente.
iG: Recente pesquisa divulgada no Brasil revelou que uma das profissões do futuro é a de Chief Innovation Officer, função voltada para pesquisa, planejamento e aplicação da inovação. As empresas estão preparadas para contratar este tipo de profissional?
Gupta: A inovação tornou-se um novo campo de trabalho, assim como vendas, marketing e design, exigindo uma estrutura definida. Pode ser que a empresa esteja preparada para ter um diretor de inovação ou simplesmente um analista. O que importa é que esta nova função tenha um foco previamente definido e que o profissional apresente uma visão estratégica de negócios, uma orientação para o aumento dos lucros e uma excelente capacidade de comunicação, além, é claro, de conhecimentos sobre a ciência de inovar.
iG: Após tantos recalls envolvendo a indústria automotiva, que conselhos o sr. daria às companhias que abriram mão do cuidado com a qualidade de produtos e serviços diante da pressão por rapidez no lançamento de novos produtos?
Gupta: Investir em inovação e abrir mão da excelência é uma equação que não fecha. Mesmo empresas que sempre prezaram pela qualidade, como a Toyota, pagam o preço por escolher caminhos mais curtos e ignorar seu próprio compromisso com a perfeição dos produtos. Inovações lançadas no mercado sem os devidos cuidados podem agradar momentaneamente a área de marketing, mas acabam tornando-se um grande problema para as equipes de vendas. O custo de uma falha no processo de criação de um novo produto ou serviço, lançado sem os devidos testes, pode tirar completamente o charme da inovação e se reverter em um grande prejuízo para a companhia. Por isso, é fundamental ter em mente que a qualidade vem em primeiro lugar.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
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